Tem dentista que fatura bem e, mesmo assim, sente que o imposto leva uma fatia grande demais. Quase sempre não é por falta de faturamento: é por falta de planejamento tributário. A diferença entre o dentista que paga 15,5% e o que paga 6% sobre o mesmo bolo raramente é sorte. É decisão tomada com antecedência, no papel, antes de o ano começar.
Como dentista e cofundador de uma contabilidade, eu vejo essa conta de perto todo mês. Planejamento tributário não é truque nem brecha; é organizar três peças que já existem — regime, Fator R e pró-labore — para que se encaixem da forma mais barata e legal possível. Vou te mostrar como elas conversam.
Planejamento tributário não é sonegar — é escolher
Começo por um esclarecimento que evita confusão: planejamento tributário é elisão, não evasão. Você não esconde receita nem inventa despesa. Você escolhe, entre os caminhos legais disponíveis, o que paga menos. A lei oferece mais de um regime, mais de um anexo, mais de uma forma de estruturar a folha, e cabe a você (com o contador) escolher bem.
Quem improvisa paga a mais. Quem planeja paga o justo. A diferença é só de método.
Peça 1: o regime tributário
A primeira escolha, e a mais pesada, é o regime. Para a maioria das clínicas odontológicas dentro do teto de R$ 4,8 milhões por ano, o Simples Nacional costuma ser o mais vantajoso pela simplicidade e pela carga. Mas não é automático: clínicas com folha enxuta e faturamento maior, ou com bom volume de procedimentos, às vezes pagam menos no Lucro Presumido.
Essa comparação merece atenção e não cabe num chute. Detalho os dois cenários em Simples Nacional ou Lucro Presumido para dentistas. O ponto aqui é: o regime é a fundação. Errar nele encarece tudo o que vem depois.
Peça 2: o Fator R
Decidido pelo Simples, entra o Fator R, e é onde mora a maior economia da odontologia. A atividade odontológica não cai automaticamente no anexo barato. Ela depende da relação entre folha e faturamento:
- Folha de 28% ou mais do faturamento (12 meses) → Anexo III, começando em 6%;
- Folha abaixo de 28% → Anexo V, começando em 15,5%.
A folha que conta inclui salários, pró-labore, 13º, férias, INSS patronal e FGTS. É por isso que a próxima peça, o pró-labore, não é detalhe de RH, é decisão tributária. Quem quiser se aprofundar só na odontologia tem o texto sobre Fator R na odontologia.
Peça 3: o pró-labore
O pró-labore é o seu salário como sócio. E ele é a alavanca que, bem ajustada, leva a clínica do Anexo V para o Anexo III. Muito dentista define um pró-labore baixinho “pra pagar menos INSS” e, sem perceber, joga a empresa inteira no anexo mais caro. Economiza no INSS e perde muito mais no imposto.
O cálculo certo é o inverso: definir o pró-labore que faz a folha bater os 28%, comparando o INSS adicional com a economia no Simples. Quase sempre a conta fecha a favor do pró-labore maior, e o INSS pago vira contribuição para a sua aposentadoria, não dinheiro perdido.
Um exemplo de como as três peças se encaixam
Uma clínica fatura R$ 25.000/mês (R$ 300 mil/ano) e está no Simples com pró-labore de R$ 3.000.
- A folha de R$ 3.000 representa 12% do faturamento → Anexo V, a 15,5%.
- Para chegar aos 28%, a folha precisaria ser de R$ 7.000/mês.
- Subindo o pró-labore para esse patamar, a clínica migra para o Anexo III, a 6%.
A diferença entre 15,5% e 6% sobre R$ 300 mil/ano supera R$ 28 mil. Mesmo descontando o INSS adicional sobre o pró-labore maior, a economia líquida fica na casa das dezenas de milhares por ano. Três peças (regime, Fator R, pró-labore) ajustadas juntas.
Os valores acima são ilustrativos. O número real depende do seu faturamento, da folha que você já tem e da sua realidade. A gente simula com os seus dados antes de mexer em qualquer coisa.
Planejamento é o ano todo, não só em abril
O erro mais comum é tratar imposto como evento anual, lembrado só na hora da declaração. Planejamento tributário de verdade é mensal: o Fator R se recalcula toda competência, e um mês de faturamento alto sem ajuste de folha pode te empurrar de volta ao anexo caro justo quando você mais faturou. Acompanhar isso de perto é o que transforma o planejamento em economia que dura.
E há novidades que entram nessa conta com o tempo: mudanças de faixa de IR, regras do Lucro Presumido para faturamentos altos, atualizações do Simples. Por isso o planejamento se revisa, não se faz uma vez e esquece.
Se você quer começar a organizar tudo isso de forma estruturada, o ponto de partida é o guia de contabilidade para dentistas, que amarra regime, folha e rotina contábil num só lugar.
Perguntas frequentes sobre planejamento tributário para dentista
Planejamento tributário é legal? Sim. É elisão fiscal: escolher, entre os caminhos permitidos pela lei, o que paga menos imposto. Não envolve esconder receita nem inventar despesa. Isso seria sonegação, que é ilegal.
Qual a maior economia possível para o dentista? Na prática, costuma estar no Fator R: levar a clínica do Anexo V (15,5%) para o Anexo III (6%) ajustando a folha e o pró-labore. A diferença sobre o mesmo faturamento é grande.
Aumentar o pró-labore não gera mais INSS? Gera, mas o INSS adicional costuma ser bem menor que a economia no imposto, e ainda conta para a sua aposentadoria. Mesmo assim, precisa simular o seu caso antes de mudar.
Com que frequência o planejamento precisa ser revisado? Idealmente, todo mês. O Fator R é recalculado a cada competência com os 12 meses anteriores, então a folha precisa ser acompanhada de perto para a clínica não escorregar de anexo sem perceber.
Vale a pena trocar de regime no meio do ano? A mudança de regime geralmente vale para o ano-calendário e tem regras próprias. Por isso o planejamento é feito com antecedência, para entrar no ano já no enquadramento certo.
Conteúdo informativo, atualizado em 10/06/2026, com base na LC 123/2006 e na legislação tributária vigente. Cada clínica tem uma realidade — simule o seu caso com seu contador. Autoria: Dr. Jean Santos (CRO-PR 18633). Revisão técnica: Wanessa Nolli (CRC-PR).



