“Doutor, vale mais a pena Simples ou Lucro Presumido para o meu consultório?” É a segunda pergunta mais comum que chega de psicólogos aqui na Biank, logo depois do MEI. E a resposta honesta é: depende de quanto você fatura e de como está a sua folha. Mas dá para entender a lógica e descobrir em qual lado da linha você está.
Vou comparar os dois regimes do jeito prático, com números, sem decoreba de manual.
O ponto de partida
Como a psicologia é profissão regulamentada, o MEI está fora. Então a escolha real do psicólogo com CNPJ é entre Simples Nacional e Lucro Presumido. (Existe ainda o Lucro Real, mas para consultório de psicologia ele raramente faz sentido, então deixo de fora aqui.)
A diferença essencial entre os dois é simples de enunciar:
- No Simples Nacional, você paga um percentual sobre o faturamento, com vários tributos reunidos em uma guia só (o DAS).
- No Lucro Presumido, os tributos são calculados separadamente, sobre uma base de lucro “presumida” pela lei.
Como ficam as alíquotas no Simples
No Simples, a psicologia entra no Anexo III ou no Anexo V, dependendo do Fator R:
- Com folha de 28% ou mais do faturamento → Anexo III, que começa em 6%.
- Com folha abaixo de 28% → Anexo V, que começa em 15,5%.
Para a maioria dos psicólogos que atende sozinho ou com pouca estrutura, organizar o pró-labore para cair no Anexo III é o que torna o Simples imbatível em faturamentos menores. Eu explico essa engenharia toda em o Fator R do psicólogo.
Como ficam os tributos no Lucro Presumido
No Lucro Presumido para serviços, a conta tem mais partes. Sobre o faturamento, a lei “presume” um lucro de 32%, e é sobre essa base que incidem:
- IRPJ 15% sobre a base presumida (mais um adicional de 10% sobre o que exceder R$ 20 mil de lucro presumido por mês);
- CSLL 9% sobre a base;
- PIS 0,65% + COFINS 3% = 3,65% sobre o faturamento;
- ISS de 2% a 5%, conforme o município.
Somando tudo, a carga efetiva do Lucro Presumido para um consultório costuma ficar em torno de 13% a 16% do faturamento, variando com o ISS do seu município e com o adicional de IRPJ.
A comparação na prática
Vamos a dois cenários reais de psicólogo.
Cenário 1 — fatura R$ 15.000/mês, atende sozinho. No Simples, ajustando o pró-labore para bater o Fator R, cai no Anexo III, a 6% → cerca de R$ 900/mês de imposto. No Lucro Presumido, a carga ficaria em torno de R$ 2.000 a R$ 2.400/mês. Aqui o Simples ganha com folga.
Cenário 2 — fatura R$ 60.000/mês, sem folha relevante. Nesse volume, a alíquota efetiva do Simples já subiu de faixa, e se a folha não alcança os 28% a empresa fica no Anexo V (15,5% e subindo). Dependendo dos números, o Lucro Presumido (carga em torno de 13–16%) pode empatar ou até sair na frente. É exatamente nesse ponto de virada que vale sentar e simular.
A regra de bolso que eu uso: faturamento menor + folha que dá para ajustar = Simples no Anexo III. Faturamento alto + folha enxuta que não chega aos 28% = hora de comparar com o Lucro Presumido a sério.
Esses valores são ilustrativos e arredondados para mostrar a lógica. O número exato depende do seu faturamento real, do ISS do seu município e da sua folha. A simulação com os seus dados é o que define a escolha.
Não é só sobre a alíquota
Tem dois detalhes que mudam a decisão e raramente entram na conta de cabeça:
Obrigações acessórias. O Lucro Presumido costuma exigir mais declarações e controles do que o Simples. Não é impeditivo, mas é trabalho (e custo de contabilidade) a mais.
Folha de funcionários. No Simples, o INSS patronal já está embutido no DAS na maioria dos casos do Anexo III. No Lucro Presumido, ele é pago à parte, sobre a folha, o que pesa se você tem auxiliares ou secretária.
E o regime não é para sempre
A opção pelo regime é feita uma vez por ano, mas a sua realidade muda. Um psicólogo que começou pequeno no Simples e cresceu pode, em algum momento, passar a ganhar com o Lucro Presumido. Por isso eu recomendo revisar o enquadramento todo ano, antes do prazo de opção, e não deixar no piloto automático.
Se você ainda está estruturando o consultório do zero, o guia de contabilidade para psicólogos cobre essa decisão desde a abertura. E para entender como o Simples trata a área da saúde de forma geral, veja o Simples Nacional para a área da saúde.
Perguntas frequentes
No geral, o que é melhor para psicólogo: Simples ou Lucro Presumido? Para a maioria, que fatura menos e consegue ajustar a folha, o Simples no Anexo III (6%) ganha. Em faturamentos altos com folha enxuta, o Lucro Presumido pode passar à frente. Só a simulação confirma.
O Lucro Presumido sempre cobra os 32% de lucro presumido? Sim, essa é a base de presunção para serviços. Mas os 32% são só a base: sobre ela incidem IRPJ, CSLL e os demais tributos. A carga efetiva total fica em torno de 13% a 16% do faturamento.
Posso trocar de regime durante o ano? A opção pelo Simples é definida no início de cada ano-calendário e vale para o ano todo. Por isso a revisão anual, feita antes do prazo de opção, é tão importante.
O Fator R também existe no Lucro Presumido? Não. O Fator R é um mecanismo do Simples Nacional. No Lucro Presumido, a folha influencia outros custos (como o INSS patronal), mas não define a alíquota daquele jeito.
Psicólogo pode escolher Lucro Real? Pode, mas para consultório raramente compensa: ele faz sentido para empresas com margens apertadas ou prejuízo, o que não é o típico de um psicólogo. Na prática, a escolha fica entre Simples e Presumido.
Conteúdo informativo, atualizado em 10/06/2026, com base na LC 123/2006, na Lei 9.249/1995 e na LC 116/2003. Cada consultório tem uma realidade — consulte seu contador antes de optar. Autoria: Dr. Jean Santos (CRO-PR 18633). Revisão técnica: Wanessa Nolli (CRC-PR).



